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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Edith Modesto: “O ‘politicamente correto’ mascara a homofobia”


Alguns pais não conseguem aceitar a homossexualidade dos filhos, e outros chegam ao extremo da violência física, psicológica e até expulsam os filhos de casa. A reação da professora universitária e doutora em semiótica Edith Modesto foi diferente. Mãe de sete filhos ela fundou, em 1997, o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), cujo objetivo principal é aproximar os pais de seus filhos gays, após descobrir que seu filho mais novo era gay.

Com a intenção de compreender melhor a sexualidade do próprio filho, Edith conseguiu ir além: ajudou e ajuda centenas de pais de homossexuais a aprender a lidar com este tema ainda tão delicado. Em entrevista exclusiva ao Eleições Hoje, Edith fala sobre homofobia, relacionamento entre pais e filhos, e diz que homossexuais precisam ser mais politizados e votar em gays e lésbicas.

Como começou o teu projeto junto aos pais dos homossexuais?
Edith Modesto - O projeto para ajudar pais e jovens LGBTs começou há mais de 20 anos, logo que fiquei sabendo que meu sétimo filho, o caçula, é homossexual. Éramos somente 4 mães.

Vencer os seus próprios preconceitos foi uma das maiores dificuldade?
Edith Modesto - Sem dúvida. Preconceito gruda como chiclete no cabelo e ele é internalizado em todos nós, inclusive nos próprios LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Transgêneros).

Como os pais encaram, em geral, a homossexualidade dos filhos?
Edith Modesto - Os pais, no início do processo de aceitação, conforme explico no meu livro “Mãe sempre sabe?” (Editora Record), encaram como uma desgraça que se abateu sobre eles. Ninguém foi preparado para ter filhos homossexuais (LGBTs), pois essa condição ainda não foi naturalizada entre nós.

Existem reações adversas, que chegam a violência física? Tem pais que se negam a participar do projeto mesmo com o pedido dos filhos?
Edith Modesto - Certamente, há pais que se negam a participar do projeto. A maioria, no início do processo, poucos não aceitam nunca. A violência doméstica é enorme no Brasil, por vários motivos. Em pesquisa feita pelo Instituto de Psicologia da USP, em parceria com as pesquisadoras do Laboratório da criança e adolescente (LACRI), aventamos a hipótese de que a violência doméstica contra os LGBTs é a maior atualmente. E a autoviolência é enorme também. Há muitas tentativas de suicídio entre jovens LGBTs, há um número menor de tentativas de suicídio entre as mães, mas também as há.

Você acha que a religião tem uma papel importante na não-aceitação de filhos homossexuais pro parte dos pais? Como você trabalha com isso?
Edith Modesto - A religião tem um papel importantíssimo na vida da maioria dos seres humanos. É uma pena que, em se falando de Deus, as pessoas possam ser homofóbicas! Ser religiosos dificulta muito a aceitação dos pais a filhos LGBTs. Mas, na maioria das vezes, com um trabalho de paciência e solidariedade, o amor aos filhos vence.

Você acredita que a homofobia aumentou no Brasil, ou apenas que há mais visibilidade sobre o assunto?
Edith Modesto - Eu penso que a homossexualidade está sendo naturalizada pouco a pouco no Brasil. Mas essa aceitação acirrou a homofobia de alguns. Por isso a violência contra os LGBTs recrudesceu. São os homofóbicos, desesperados, se Deus quiser, nos estertores da morte.

Você acredita que a condição de vida dos homossexuais progrediu nesta década? Em que aspectos ela ainda deixa a desejar?
Edith Modesto - Eu penso que a condição de vida dos homossexuais melhorou nessa década. Mas ainda falta muito. Principalmente na escola e nos lares. Hoje, já dá pra aceitar que o filho da vizinha é gay, mesmo que as amigas tenham pena dela. Mas, quando a questão entra em casa, é ainda difícil.

Quais são os maiores entraves para a conquista de benefícios por parte dos LGBTs, como casamento civil, lei contra a homofobia, etc?
Edith Modesto - A maior dificuldade atualmente, no meu entender, é a falta de politização dos gays. Os gays e lésbicas precisam votar em homossexuais, para formarem uma bancada que lute por eles! Afirmo isso, mesmo sabendo que não é tão simples esse empoderamento, considerando que os homossexuais, discriminados desde jovens, ficam com a autoestima baixa.

Você é favorável a uma lei que criminalize a homofobia?
Edith Modesto - Há muita necessidade de uma lei que criminalize a homofobia. Precisamos de uma bancada para lutar pelo PLC 122, porque qualquer tipo de discriminação e violência contra as diferenças é crime. Por que a violência contra os negros é crime e contra os LGBTs não é?

O que você acha dos tratamentos para ‘conversão de sexualidade’, existentes em muitas igrejas e consultórios psicologicos? Você acredita que elas causam danos no desenvolvimento da sexualidade dos jovens?
Edith Modesto - O tratamento de reversão já é considerado crime. Psicólogos que fazem isso perdem seus diplomas. Mas o problema é mais complexo. Precisamos de disciplinas nas faculdades, não só de psicologia, sobre “diversidade de orientação sexual e diferenças de gênero”.

Você acha que a escola peca em ensinar para a diversidade sexual? Pesquisas apontam para um alto índice de homofobia nas escolas, como reverter esse quadro?
Edith Modesto - As escolas devem conversar com os jovens sobre a diversidade de orientação sexual, sem dúvida. Mas, novamente, essa ação tão importante, é de grande complexidade. Há que preparar capacitadores para os professores e considerar que qualquer ação na escola não terá resultados positivos se não envolver a comunidade. Assim, teremos de considerar as diferenças socioculturais das comunidades, das escolas, dos professores. Não adianta um kit educativo contra a homofobia, muito bem feito, se ele não for usado, isto é, se os professores não forem preparados e souberem e aceitarem usá-lo.

Acha que uma educação para a diversidade, falando sobre homossexualidade e transsexualidade poderia ‘influenciar’ a sexualidade de jovens que não são gays, como apregoam alguns pastores evangélicos?
Edith Modesto - De jeito nenhum! Eu creio que a diversidade de orientação sexual é uma condição natural e espontânea do ser humano.

O que você tem a dizer a um jovem homossexual que está descobrindo a sua sexualidade e não sabe como agir em relação a ela?
Edith Modesto - Eu teria o cuidado de acompanhar esse processo no ritmo do adolescente, considerando o preconceito já internalizado nele e as pressões familiares, escolares e sociais de modo geral que ele sofre.

E aos pais que descobrem que tem um filho gay, como agir, em linhas gerais?
Edith Modesto - Com os pais, temos de agir também com muita paciência e compreensão. NInguém foi preparado para ter filhos diferentes, na nossa cultura. O positivo, é que o amor, quase sempre, vence!

A aceitação da homossexualidade dos filhos vem com o tempo? Tem pais que nunca aceitam o fato?
Edith Modesto - Sim, a aceitação de um filho LGBT é um processo. Para alguns, mais rápido, para outros, mais lento. Poucos nunca aceitam o fato, muito poucos.

O Brasil é um país homofóbico? A gente já avançou muito em questões como o racismo, mas ele ainda existe e com força. Você acha que a gente mascara nossos preconceitos para que eles pareçam menores?
Edith Modesto - Eu ainda considero o Brasil um país homofóbico, mesmo que essa característica negativa esteja em processo de melhora. Eu penso que, atualmente, há um modismo e que o “politicamente correto” mascara bastante o preconceito e a homofobia que ainda existem, infelizmente. Mas está melhorando.

*William De Luca é repórter de economia do Jornal da Paraíba. Jornalista, ativista LGBT.

**Não deixem de ler a postagem original, além dos demais textos postatos no site Eleições Hoje.


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

STJ cria precedente para casamento homossexual

No dia 5 de maio, o Superior Tribunal Federal (STF) reconheceu a união estável entre casais do mesmo sexo como entidade familiar, estendendo aos homossexuais, os mesmos direitos que possuem os casais heterossexuais que vivem o mesmo tipo de relação. E no dia 25 de outubro foi a vez do Superior Tribunal de Justiça (STJ) garantir que os direitos dos LGBTs sejam reconhecidos, autorizando o casamento civil entre duas mulheres.

Quatro dos cinco ministros da quarta turma do STJ autorizaram o casamento de um casal de gaúchas que vivem juntas há cinco anos e desejam mudar o estado civil. Foi a primeira vez que o STJ tomou esse tipo de decisão. A ação das gaúchas chegou a Brasília depois que um cartório e o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul rejeitaram o pedido.

Outros casais já haviam conseguido se casar em âmbito civil, mas em instâncias inferiores da Justiça. O primeiro casamento civil no país ocorreu no final de junho, quando um casal de Jacareí (SP) obteve autorização de um juiz para converter a união estável em casamento civil.

As gaúchas entraram com o pedido de casamento civil antes mesmo da decisão do tomada pelo STF em maio deste ano. As duas mulheres, cujas identidades são protegidas por segredo de justiça, pediram em cartório o registro do casamento, o que foi recusado. Então resolveram entrar na Justiça, mas o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul julgou improcedente a ação, o que as levou a recorrerem ao STJ.

O julgamento começou na semana passada. O advogado do casal, Paulo Roberto Iotti Vecchiatt, argumentou que, no direito privado, o que não é expressamente proibido, é permitido. Ou seja, o casamento estaria autorizado porque não é proibido por lei.

O relator do processo, ministro Luis Felipe Salomão, foi favorável ao pedido e reconheceu que o casamento civil é a forma mais segura de se garantir os direitos de uma família. "Sendo múltiplos os arranjos familiares, não há de se discriminar qualquer família que dele optar, uma vez que as famílias constituídas por casais homossexuais possuem o mesmo núcleo axiológico das famílias formadas por casais heterossexuais", disse.

A sessão, no entanto, foi interrompida por um pedido de vista do ministro Marco Aurélio Buzzi, o último a proferir seu voto, mas na sessão do dia 25 ele seguiu o relator do processo, em favor do casamento, destacando que o Código Civil, que disciplina o casamento entre heterossexuais, "em nenhum momento" proíbe "pessoas de mesmo sexo a contrair casamento".

Apenas o ministro Raul Araújo Filho, que havia se manifestado a favor na primeira parte do julgamento, mudou seu voto, contra o casamento. Ele afirmou que não cabe ao STJ analisar o caso, mas sim ao STF.

A diferença entre a decisão do STF, que em maio deste ano estendeu o reconhecimento de uniões estáveis para os casais homoafetivos, é que esta torna obrigatório a todos os cartórios do Brasil a seguirem a sua recomendação. Já a decisão do STJ não é obrigatória, mas abre uma importante jurisprudência para que juízes de fóruns ao redor do Brasil possam se basear para decidir favoravelmente a outros casais que queiram casar no civil ou converter a sua união estável em casamento.

Entre as diferença entre a união estável e o casamento civil estão:

- No casamento civil é permitida fazer a troca de sobrenomes, na união estável a troca pode ser questionada por juiz;

- No casamento civil os cônjuges podem adotar o estado civil de casados; na união estável não muda;

- No casamento o cônjuge não pode ficar sem herança, na união estável a herança para o companheiro pode ser questionada pelos familiares e tem de estar no testamento;

- No casamento civil o reconhecimento da união é imediato, na união estável é preciso estar mais de três anos juntos e provar judicialmente tal união.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Como falar sobre homossexualidade com as crianças

A Justiça está acompanhando o que a sociedade tem respondido: gays e famílias formadas a partir de casais homossexuais estão conquistando seu espaço de direito. CRESCER conversou com especialistas para ajudar a você a tratar do assunto da maneira menos preconceituosa possível.

Em uma decisão inédita no Brasil, um juíz de Jacareí (SP), converteu a união estável de Sérgio Kauffman e Luiz André Moresi em casamento nessa segunda-feira (27/06). O fato foi consequência de outra decisão anterior: no dia 05 de maio desse ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por unanimidade à favor da união estável de homossexuais, o que garante aos gays o direito de adoção, herança, plano de saúde compartilhado e pensão.

Tudo mostra que a sociedade brasileira caminha em direção ao respeito à diversidade sexual. Mas como agir quando o seu filho vê um casal gay na rua ou na televisão e questiona o por que de duas pessoas do mesmo sexo juntas? E como fazer com que essa não seja mais uma questão para as crianças e seja encaradada de forma mais natural?

A tendência é que os pais passem para os filhos os seus valores. Ou seja: casais preconceituosos provavelmente irão transmitir isso aos filhos”, afirma Quézia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPP).

Cada vez mais, pessoas homofóbicas têm seus valores questionados. Da polêmica causada pelo deputado Jair Bolsonaro aos beijos proibidos nas novelas, passando pelo destaque da Parada do Orgulho Gay em São Paulo todos os anos, o assunto não está mais atrás do armário.

Ensinar o respeito ao próximo, assim como outras regras em geral, deve ser uma obrigação dos pais, acredita a psicóloga Ana Lúcia Castello. “A estrutura familiar mudou", diz Ana Lúcia. "Hoje não é mais necessariamente um casal com filhos. As pessoas precisam estar abertas a isso.” Portanto, se você tem algum preconceito, precisa se atualizar.

Mas mesmo para as famílias que tenham isso mais bem resolvido este pode ser um assunto delicado. Tanto a presidente da ABP quanto a psicóloga afirmam que os pais devem falar sobre homossexualidade com as crianças na medida em que a curiosidade delas aparecer. Ou seja: responda somente aquilo que seu filho perguntar, sem explicações mais aprofundadas. E não se surpreenda se a primeira pergunta acontecer bem cedo.

Além disso, afirma Ana Lúcia, a discussão sobre homossexualidade deve estar inserida em um contexto maior, o de educação sexual. “Essa é uma maneira de tratar o assunto da maneira correta: com naturalidade”, afirma a psicóloga. Porque a questão que vem antes do sexo é uma só: individualidade. São pessoas, acima de tudo.

Se ainda tiverem dificuldades de como conversar, a escola pode ser um grande aliado. Ela participa ativamente da educação do seu filho e é um espaço importante de convivência, perfeito para se exercitar o respeito às diferenças. Mesmo as crianças que venham com valores preconceituosos de casa, aliás, podem reverter esse quadro no espaço escolar.
 
Texto extraído da Revista Crescer

Nota do blogayro:

Percebo que muitos pais/famílias estão abrindo mão do seu papel de educadores, delegando esta função às escolas, no entanto, é dever da escola instruir. Educação, no seu sentido mais pleno, é algo que vem de casa. Tem haver com valores e não só conhecimentos. E são esses mesmos pais que impedem as escolas de discutirem temas importantes para a formação da criança como cidadão conhecedor dos seus direitos e, sobretudo, deveres.

Drogas, sexualidade, homossexualidade são temas considerados tabus tanto em casa quanto na escola. Acontece que em algum momento esse jovem em formação terá essas curiosidades. Ele irá perguntar a alguém, buscar em algum lugar. Devemos mesmo correr o risco de deixá-los aprender sozinhos e equivocadamente ou vamos assumir nossa responsabilidade de educadores e permitir que eles tenham acesso a informação adequada?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vergonha?!

“Eu tenho vergonha de você!”



A frase é dura, cruel, até, mas é isso que muitos pais dizem aos seus filhos quando ouvem “mãe, pai, eu sou gay!”. Alguns pais não dizem, mas seus gestos a partir daí deixam claro que é esse o seu sentimento quanto filho. Afinal, o que pensaria um adolescente ou qualquer outra pessoa, independente da idade, que depois de fazer tal revelação aos pais ouvisse como pedido um “não conta isso para ninguém”?

Tem ainda a indiferença. O assunto não existe. Entra para o armário no exato momento em que o filho ou filha o sai. Se ficasse apenas nisso, por mais difícil que fosse para o mais novo assumido do pedaço lidar com a situação, pelo menos teríamos alguma possibilidade de esse adolescente crescer e amadurecer sua sexualidade de forma saudável ou, no mínimo, sem muitos traumas.

Minha mãe, depois do “eu tenho vergonha de você” me pediu que não contasse para mais ninguém. Pena que ela foi praticamente a última a saber. Não sei se já superei isso, mas estou aqui, tentando de alguma. Independente de ela ter jogado isso para debaixo do tapete eu tenho buscado viver minha homossexualidade de forma saudável. Claro que aprender sozinho aumenta um pouco o caminho, mas tenho seguido, independente do que ela pensa ou diz sobre meu wallpaper – uma foto da Brit e Madge se beijando no VMA de 2003 – por exemplo.

Enfim, a gente supera, em partes, pelo menos, e segue, mas e quando a coisa vai além disso? E quando os pais decidem “ajudar” seus filhos a voltarem para o “caminho certo”? Quando eles resolvem levar seus filhos à igreja no domingo, por exemplo, e o convite está muito além de uma simples oração? E quando eles resolvem ainda levar aquele menino ou menina de 15, 16, 17 anos ao psicólogo para “resolverem o problema”? Sendo que o problema é um jovem, seu filho, com a personalidade em formação, cheio de medos e dúvidas.

E quando estes pais entendem que o filho, que horas antes estava, por vezes aos prantos, dizendo-lhe “sou gay”, está doente mental, espiritual e psicologicamente e submetem-no às piores atrocidades? E quando o resto da família, os irmãos, por exemplo, que poderiam ajudá-lo a passar por esse momento de uma forma menos traumática, compartilham do pensamento dos pais e dizem coisas do tipo “mãe, ele é insensível, só pensa nele”, “desde que você contou aquilo eu não consigo mais dormir, eu não sinto mais alegria em nada”?

E quando, sob a desculpa de estar ajudando seu filho, os pais, na verdade, fazem chantagem emocional, pior, terror psicológico, e acabam fazendo desse momento de descobertas do filho, um tempo de angústias, desespero, culpas, fazendo esse jovem se sentir o pivô da infelicidade familiar e até mesmo negando a si, a quem é de verdade?

De fato pais, irmãos, parentes assim devem sentir vergonha ou deveriam, pelo menos, mas não do pequeno que quer apenas um abraço, nada muito além, que lhe comunique “eu estou aqui para cuidar e proteger você”. Eles deveriam sentir vergonha de si. Vergonha de conseguirem encarar-se no espelho todas as manhãs ou de deitarem a cabeça no travesseiro todas as noites e conseguirem dormir tranqüilos achando que estão fazendo o certo.

É certo aterrorizar uma pessoa, um filho, por puro preconceito? Não me venham falar em desinformação ou que não sabem com agir. Conheço pais que também não sabiam e ainda assim não submeteram seus filhos a situações desumanas, porque sim, obrigar uma criança a participar de cultos ou terapias para “cura” da homossexualidade é desumano, senhores pais e mães. É tão desumano quanto expulsá-los de casa deixando-os à sua própria sorte.

Eu também tenho vergonha, mas de pais como vocês, de parentes como vocês. Vocês também deveriam sentir vergonha de si.

domingo, 8 de agosto de 2010

'Filho, eu sou gay!'

- Filho?
- Que é pai?
- Eu sou gay!
- Oi!?

Em geral acontece o contrário, mas e quando o pai é que sai do armário? Nesse dia dos pais conheça histórias de filhos que descobriram que seus pais eram gays. Leia matéria publicada pela Folhateen na edição do dia 02.08.

por Iuri de Castro Tôrres



As famílias homoafetivas ainda não figuram nas estatísticas do Brasil (os primeiros dados começaram a ser levantados com o Censo 2010), mas elas existem e levantam uma questão para os adolescentes de hoje: como você reagiria se seu pai dissesse que é gay? Na semana do Dia dos Pais, o Folhateen conversou com jovens criados por pais que "saíram do armário".



Há quatro anos, Aléxia Gaspari, 16, estava no carro com seu pai, Alexandre, quando ele começou: "Olha, aquele amigo do papai não é só um amigo, entende? Ele vai morar lá em casa."


"Na hora, levei numa boa. Mas, quando vi os dois se beijando, fiquei muito mal e tive uma crise de choro. Na teoria, é fácil aceitar. Na prática, é diferente." Com o tempo, a situação melhorou. "Hoje, somos uma família normal", diz.


Flávia, 17, por exemplo, "costumava xingar homossexuais na rua". Quando o pai e, depois, a mãe assumiram que eram gays, a garota entrou em parafuso. "Fiquei transtornada. Não conseguia acreditar. Tudo virou de pernas para o ar", lembra. Flávia começou a culpar a mãe pelos porres que tomava. Tentou fugir de casa. E tinha vergonha de apresentar os amigos aos pais.


Ela se refugiou nas letras e começou a escrever contos. "Amo meus pais e, quando vi que não tinha mais volta, passei a aceitá-los. Eu me coloquei no lugar deles e entendi o quanto deve ser difícil se assumir", explica.


O desafio desses jovens é aplacar, de uma vez, o ciúme e o próprio preconceito. "O jovem pode achar que "ser gay" é uma forma de traição, e isso gera angústia", explica Ana Cláudia Bortolozzi Maia, professora de psicologia da Universidade Estadual Paulista e autora do livro Adoção por Homossexuais. "Eles têm de entender que o pai não deixou de amá-los, só está tentando ser feliz", diz.


"Não deve ser fácil contar que é gay para o filho", diz Natália, 15, cujo pai vive com outro homem há quatro anos. "Eu pensava: por que não me contou antes? Acho que foi para me poupar."


Existe hora certa para contar? Para Bortolozzi, em geral "a criança assimila melhor esse tipo de situação do que um jovem".


E é uma boa falar sobre isso com os amigos? Matheus Mattos, 15, só contou que a mãe, Viviane, é gay para o melhor amigo. "O grupo social é importante para o jovem, mas pode ajudá-lo tanto a aceitar quanto a discriminar", diz a psicóloga.


Certa vez, um garoto xingou o pai de Aléxia na escola. Desconcertada, ela pediu conselhos ao pai, que a ajudou a lidar com a situação. "Mas isso nunca mais aconteceu. Todas as minhas amigas adoram meu pai", conta.


No mês passado, a Argentina aprovou uma lei que permite o casamento entre homossexuais e a adoção de crianças por eles. O Brasil está atrás dos "hermanos" na questão dos direitos dessa minoria. Nem casamento nem adoção são regulamentados por aqui. O jeito encontrado por eles foi o improviso: há 15 anos, Jorge, 15, foi adotado por dois homens, mas foi registrado no nome de apenas um deles.


Na Câmara, o deputado Zequinha Marinho (PSC-PA) propôs uma alteração no Estatuto da Criança e do Adolescente para proibir que casais gays adotem crianças. Sua justificativa: isso "exporá a criança a sérios constrangimentos", como não conseguir explicar aos colegas por que tem dois pais ou duas mães.

Jorge diz que nunca se importou com a orientação sexual dos pais. "Se eles se sentem felizes, por que vou me incomodar?", questiona.


Segundo Bortolozzi, ao contrário dos mitos que rondam as famílias de pais homossexuais, "a única diferença é que os jovens criados por eles tendem a ser menos preconceituosos e mais tolerantes com as diferenças".


Flávia faz o resumo da sua própria ópera: "Apesar dos maus bocados por que passamos, meu pai nunca deixou de ser meu melhor amigo. O que menos importa é se ele é gay ou se é hétero".

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Sim, meu filho é gay!

No dia 04.07 eu postei o texto: Mãe, eu sou gay!

Ele nasceu de uma conversava com um amigo cuja a mãe “não sabe” sobre ele e baseado nisso, resolvi escrever sobre o dia em que contei isso à minha mãe.

Para minha surpresa o post foi o mais comentado do blog e todos os comentários foram incríveis. Filhos falando sobre sua experiência com suas mães, héteros com filhos héteros analisando a situação e até mesmo uma mãe comentou sobre sua relação com o seu filho gay.

Lilah, cujo filho Lucas é gay, escreveu sobre sua reação ao saber que tinha um filho homossexual no seu blog, o Tramas, tranças e bobagens.

Li a postagem e achei que deveria compartilhá-la com todos vocês como forma de agradecê-los pela leitura fiel destes desabafos insanos. Boa leitura e não deixem de acompanhar OLiquidificador.


por Lilah Bianchi
do Tramas, tranças e bobagens
Eu não sei quando eu percebi que meu filho era gay. Nem me pergunte como ou por que, com certeza eu não saberia dizer. Talvez venha na descrição do trabalho de mãe: “sempre saber o que o filho sente”. Vai ver está junto com “prever o tempo” e “detectar mentiras”. A questão é que eu soube acho até que antes dele mesmo realizar isso.

Lucas é o terceiro, filho do segundo casamento, fruto de uma gravidez difícil e muito desejada. Foi, desde muito pequeno, uma criança calma, tranquila, que nunca deu nenhuma dor de cabeça. Os irmãos estavam quebrando a casa? Lucas estava no quarto brincando com lego. Os irmãos davam nó no pelo do cachorro e comiam a ração(juro que faziam isso!)? Ele limpava a sujeira e dava bronca nos dois. Era bom aluno, lutava caratê, gostava de jogar videogame e torcia para o Flamengo, como qualquer criança de bom gosto (rsrs). Mas, eu olhava para ele, com 10 ou 12 anos e uma voz me dizia que ele era diferente dos irmãos.

Enquanto o do meio namorava qualquer coisa com saias, o mais velho engatava um namoro longo, eu via Lucas sozinho, cada vez mais e mais isolado. Aos poucos o isolamento virou tristeza. A proximidade que sempre tivemos virou distância. O menino doce ficou agressivo, impaciente, sem tempo para a família e os amigos. O pai colocava tudo na conta da “aborrescência”, mas eu via um pouco mais que isso. E comecei a ter medo.

Que ninguém se engane, não foi um processo simples. Não sou nenhuma mulher maravilha. Tive medo do que iam pensar. Tive medo do que a família ia dizer. Questionei minha própria competência como mãe, me perguntei se havia falhado em alguma coisa, se de alguma forma era minha “culpa”. Ah, mães são especialistas em culpa! Nos culpamos sempre, por tudo e qualquer coisa. Tive dúvidas. Temi pela reação do meu marido, machista como a maioria dos brasileiros, ao descobrir que o único filho homem era gay.

A certeza veio ao descobrir revistas em seu quarto. Toda mãe de adolescente já encontrou playboy embaixo do colchão, muito antes de seus filhos terem idade legal para comprar. Eu encontrei homens nus ao invés de mulheres.

Talvez a melhor coisa que eu tenha feito foi não me sentar e esperar. Eu quis entender. Eu quis estar pronta para o dia que ele me contasse. Mais que isso, eu quis que ele soubesse que eu ouviria, que ele podia contar. Claro que no meio do caminho eu cometi enganos. Exagerei ao pressioná-lo, não muito discretamente, para me contar. Exagerei em livros, filmes, dicas e indiretas. Como ele diz hoje, ele não saiu do armário, eu chutei ele para fora.

Quando ele finalmente contou, não foi o pai que teve problemas, mas o irmão mais velho. Medo que os amigos achassem que ele também “era viado”. Não foi um tempo tranquilo. Nem um que deixou saudades, mas ele aprendeu a respeitar o espaço do irmão e no processo eles se tornaram mais amigos do que eram antes. E aprendeu tão bem, que sua madrinha de casamento é transex. Minha família descobriu sobre diversidade. Meu caçulinha, cresce hoje numa casa onde orientação sexual é só um aspecto da vida e não define nada.

Se você é mãe, pai, irmão... o que eu posso dizer é que aquela pessoa na sua frente dizendo “sou gay” é mesma que você trocou fraldas, ninou, levou para o parquinho. É o mesmo irmão que você jogou bola ou brincou de bonecas. É ainda o mesmo filho que lhe deu beijos melados. O mesmo irmão que dividiu o último biscoito. O mesmo sobrinho que brincou de cavalinho nas suas costas. É ainda a mesma pessoa. E ainda ama você do mesmo jeito.

Eu? Sou mãe de quatro meninos. Um deles, acontece gostar de meninos ao invés de meninas. Um deles é gay. Assim como um deles tem olhos azuis, o outro tem alergia a camarão e o quarto a vida me deu de presente, ao invés de ser gerado por mim. Só do jeito que Deus fez cada um deles. Absolutamente, perfeitos.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A relação entre o casal gay e a criança adotada

Esta semana toda a imprensa nacional noticiou o projeto de lei que, se aprovado pelo Congresso Nacional, proibirá os casais homoafetivos de adotar crianças. Eu, claro, sou contra! Sobre o tema, eu achei um texto bem interessante na internet que compartilho com vocês agora. Boa leitura!
Entrevista concedida por Paulo Bonança* ao Jornal O SEXO (RJ)

Pode acontecer de uma criança adotada por um casal gay ser homossexual devido ao convívio?
Seria muito difícil poder afirmar que uma criança adotada por um casal gay venha a ser gay devido ao convívio. Seria o mesmo que afirmar que filhos de héteros serão héteros devido ao convívio com os pais héteros.
Como o casal homossexual deve encarar a relação com o filho adotado?Em primeiro lugar não centralizando a relação com o filho na orientação sexual dos pais. Se a orientação sexual dos pais não estiver bem trabalhada por eles, a insegurança pode ser transferida ao filho.

Em um casal hétero, os pais se beijam na frente dos filhos. Com um casal gay o comportamento poderá ser o mesmo?
Existem pais que se sentem cômodos se beijando na frente dos filhos, alguns vão a praia nudista com os filhos e caminham de roupa intima dentro da casa, já outros não se sentem cômodos com estas situações. Cada família é “um mundo em constante movimento”. Caberá aos pais decidir se eles se sentem cômodos ou não se beijando na frente do filho, o importante é não “forçar a barra”, nem para um lado nem para o outro.

Como os pais adotivos devem proceder quando a criança rejeita os pais por eles serem gays?
Interessante a sua pergunta, na minha pratica clínica já escutei muitos relatos de pais que abandonaram ou discriminaram os filhos por eles serem gays, mas até hoje nunca escutei de um filho que tivesse rejeitado o pai ou a mãe.
Qual a faixa etária ideal de uma criança ser adotada por casal gay?Não existe idade para se entregar e receber amor e cuidados, e não se espera ser amado para amar.

O senhor acredita que os testes psicológicos aplicados pelo Juizado de Menores conseguem realmente diagnosticar se o casal tem condições de conviver com o filho adotado?
Creio que os testes, as entrevistas, a busca de informação sobre o casal é necessária e importante em todos os casos, afinal é uma vida que esta sendo entregue aos cuidados de um casal. Ninguém pode afirmar com 100% certeza, mesmo com as avaliações, que esta criança estará protegida e bem cuidada, mas penso que este procedimento é parte importante de qualquer processo de adoção, seja por héteros ou gays.

O senhor recomenda que o casal que quer adotar ou adotou faça acompanhamento psicológico?
Se o casal tem dúvidas sobre o tema ou está inseguro de como tratar a criança, penso que o acompanhamento de um psicólogo poderia ser útil. Com respeito à criança não temos porque patologizar a situação. Diariamente crianças vão ao psicólogo, isto independente da orientação sexual dos pais ou de serem adotadas ou não. Cada caso é um caso e deve ser observado com critério, sem patologizar a situação, mas também sem negá-la caso seja necessário o acompanhamento de um psicólogo.

Como os pais devem encarar o preconceito existente nas escolas e no dia a dia?
Infelizmente, o preconceito e a discriminação podem vir a alcançar as crianças. Frente a isto creio que manter os canais de comunicação abertos é fundamental. Dizer ao filho que eles estão dispostos e disponíveis a conversar sobre o tema e a responder as dúvidas que ele possa vir a ter. Que a orientação sexual deles não é algo tão importante, mas que para algumas pessoas pode ser. Isto ocorre porque elas não sabem, elas não entendem o que é a homossexualidade.
Escolas, empresas, comunidades entre outros estão preparados para encarar de frente um casal homossexual junto ao seu filho?
A adoção de uma criança por um casal homossexual , como tema social é algo novo, talvez a sociedade como um todo e as instituições em particular não estejam preparadas, mas a vida é feita de desafios.

O senhor acha que o casal deve omitir da criança adotada que é gay?
Omitir que é gay é instalar um segredo dentro do convívio familiar, é negar uma situação que pode ser obvia, é negar os avanços sociais que levaram o casal a possibilidade de adotar esta criança, é colocar a homossexualidade dos pais dentro de um contexto obscuro. Talvez antes de negar ou afirmar algo, seja melhor averiguar o que a criança já sabe e o que pensar sobre a situação.

*Paulo Bonança é Psicólogo e Sexólogo. Diplomado em Sexualidade Humana pela Universidade Diego Portales- Chile. Autor da Tese “A AIDS entre os homossexuais; A confissão da soropositividade ao interior da família”. Membro da SBRASH (Sociedade Brasileira de Estudos da Sexualidade Humana)
www.paulobonanca.com paulopsi2000@yahoo.com.br

domingo, 4 de julho de 2010

Mãe, eu sou gay!

A idéia de escrever esse texto partiu de uma conversa que tive há alguns dias com um amigo meu que também é gay. Os pais dele não sabem disso e ele não pretende dizê-lo, pelo menos enquanto depender deles financeiramente. O motivo? Ele não quer deixar de ser o bom filho de sempre. Eu sempre fui o filho ideal até dizer:

“Mãe, eu sou gay!”


Quatro palavras. Algumas das mais difíceis de pronunciar. Quem já as disse sabe quanta coragem precisa-se ter para terminar a frase. Quantos caras e garotas será que não a disseram no exato instante em que as digitei? Inúmeros. Assim como outros tantos pensam agora em como fazê-lo. Difícil.


As mães são sempre tão superestimadas. Talvez seja em função do tal amor incondicional para seus filhos que elas são sempre as primeiras em que pensamos quando passamos por alguma dificuldade, mas e quando para nossa surpresa, esse tal amor incondicional esbarra em algo? Sempre esperamos que nossas mães abram seus braços e nos acolham independente de qualquer coisa e elas costumam fazer isso, desde que sejamos sempre o filhinho da mamãe.

Limpinhos, cheirosos, educados, estudiosos, responsáveis, caseiros, obedientes. É longa a lista de atributos que nossas mães esperam que tenhamos. Eu sempre fui tudo isso. O primeiro aluno da turma. O único cuja mãe nunca recebia reclamações, mas só elogios nas reuniões da escola. Sempre obediente, nunca brincava na rua com os outros meninos. Também não respondia aos mais velhos, não chegava em casa depois do horário permitido e só saia com os amigos, mesmo para o cinema, se houvesse autorização. Enfim, eu era o filho perfeito, mas a criança cresceu.

Até que chegou o grande dia. O de pronunciar a tal frase. Depois de tanto esconder, achei que fosse o momento de ter ao meu lado, mais uma vez, aquela que sempre me pegou com força contra si e fazia do seu corpo o meu escudo contra as armas do mundo. Então eu disse: “mãe, eu sou gay!”. Primeiro veio a tradicional “eu já sabia”. Mães sempre sabem. Não importa o quê e como, mas elas sempre sabem, às vezes só não querem admitir para não ‘sofrerem’.

Em seguida sumiram todas as minhas inúmeras qualidades cultivadas ferrenhamente ao longo da vida. As noites em claro estudando estranhamente deixaram de existir, os inúmeros elogios ouvidos nas reuniões da escola desapareceram. Todas as notas 10 sumiram dos boletins escolares. Eu acabara de desobedecer minha mãe. Claro que não foi a primeira desobediência, mas foi a maior de todas. A única que eu jamais poderia pensar em cometer.

Por fim veio a esmagadora “eu tenho vergonha disso”. Ela sentia, então, vergonha do seu filho, tantas vezes aclamado como o mais querido e que tantas outras vezes causou ciúmes nos demais devido essa tal predileção. Veio também a promessa de nunca falar sobre o assunto com ninguém e o pedido para que eu fizesse o mesmo mal sabendo ela que era praticamente a última a saber, com sempre acontece com todas as mães. Veio também a cobrança, as reclamações, insinuações, o regular dos horários, companhias e locais.

O abraço desejado de “meu filho, eu te amo acima de qualquer coisa” não veio. Mas veio o choro. Não o de cumplicidade, mas o de despontamento. O do meu desapontamento. O da dúvida sobre “com quem contarei agora?”. Era incrível como quatro palavras cheias de sinceridade, medo e triunfo se sobrepuseram a todo o resto. Talvez se eu dissesse “mãe, minha namorada está grávida”, como fez meu pai aos 16 anos, eu recebesse o abraço, apesar da irresponsabilidade assumida e cometida.


Mesmo tendo se passado tanto tempo eu ainda não compreendi. Não aceitei. Não me recuperei. E talvez nem queira. Mas me conformei. Como toda mãe que sempre sabe de tudo, ela percebe a tristeza no fundo dos meus olhos, mas como dizer a ela que esse sentimento vem da briga com o namorado ou do fora recebido daquele cara que nos tira o fôlego só de pensar? O que fazer então com o desejo desesperador de correr para seus braços quando alguém me aponta na rua e diz “lá vai o viadinho”?

Não sei. Só sei que sou gay. Só sei que sinto inveja de outros amigos meus cujas mães agem de forma contrária. Sei também que essas mães são a minoria. Sei que eu continuo sendo exatamente o mesmo e que talvez ela não tenha enxergado de fato como eu era. Sei também que o amor de mãe e filho continua o mesmo, assim como sei que não terei sua benção para trilhar meu caminho porque, mãe, eu sou gay.