sábado, 4 de setembro de 2010

Porque se tem que ser hétero, né?

“Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar.”
(Carlos Drummond de Andrade)

Hoje, quando estava na parada esperando um ônibus para voltar para casa, encontrei com uma das minhas professoras da 6ª série. Começamos a conversar, ela quis saber como estava minha vida, se eu tinha seguido os estudos, se estava trabalhando, essas coisas. Contei a ela que estou terminando o curso de jornalismo e que já trabalhava como repórter há mais de um ano, enfim, a coloquei a par de tudo.

Como moramos em bairros próximos, pegamos o mesmo ônibus e o papo continuou até que veio o seguinte diálogo:

Ela: - Então, Jock, já casou?
Eu: - Não!
Ela: - Mas tá namorando?
Eu: - Não!
Ela: - Ah, mas que rapaz é esse que não tem namorada? É só falta de tempo?
Eu: - Também.
Ela: - E o que mais?
Eu: - Eu não tenho namorada por que eu prefiro namorado.

Depois disso houve um longo silêncio da parte dela - que ficou sem saber como agir. Até que voltamos a falar. Falar sobre amenidades.
Baseado nessa conversa de hoje quero fazer-lhes uma pergunta? Por que as pessoas partem do pressuposto que TODOS somos heterossexuais? Por que é tão difícil para as pessoas conceberem a possibilidade do diferente? Seria medo ou insegurança de, ao admitir as diferenças dos outros, ter que se ver como diferente também, afinal, tudo é uma questão de ponto de vista?

Essa dificuldade existe por que temos a necessidade de termos padrões para tudo querendo que todos sejam ou se comportem como ele e nem sempre somos suficientemente flexíveis para dar espaço ao outro para ser como ele quer. Um erro tremendo que só conduz a ressentimentos. Mas isso teria solução se as pessoas meditassem como seria se a situação fosse inversa.

É difícil aceitar as diferenças de outras pessoas porque também não reconhecemos nem aceitamos as nossas. Quando isso acontece aprendemos a aceitar e respeitar as diferenças dos outros também. Há que viver e deixar os outros viverem. O limite de cada um é a liberdade do outro e quando todos pensassem assim tudo seria mais fácil e as relações interpessoais seriam muito melhor.

Esse processo faz parte da vida de todo gay. Primeiro nos percebemos diferentes e depois percebemos que todos os outros também nos vêem como diferentes, inadequados e errados por nossa “escolha”. Assim a única opção é esconder essa grave diferença de qualquer pessoa.

Depois de um longo período de auto-aceitação, não sem alguns (muitos) traumas, aprendemos a lidar com essa questão, mas sempre fica um receio com relação à reação do outros. Senti esse receio ontem quando fui perguntado por que não tinha namorada. Nos segundos que precederam a minha resposta pensei se deveria ou falar o rela motivo. Não por que eu não me sinta seguro de mim com relação a ser gay, mas por que sempre há o medo da agressão, da reprovação, da discriminação.

Ao ouvir minha resposta ela preferiu não comentar. Mudou de assunto. É assim que acontece quando esbarramos com as diferenças alheias. Fingimos que não existem. É mais fácil. Afinal, é mais fácil conviver com a parte das pessoas que me interessa e que eu possa me identificar.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Olhos felizes

Depois de trazer uma nova proposta para a MPB, Marina mostra-se feliz ao seu público em seu novo álbum, falando de amor, paixãoes, sexo, auto-determinação.
Acompanhe toda a série Especial Marina Lima.

“Vem cá, amor, me dá um beijo. Pra mim o seu olhar tem ondas feito o mar.” Foi com esses versos que Marina convidou a todos para ouvirem Olhos Felizes, seu segundo álbum, lançado em 1980. Estamos enfim na década de 1980 quando a música pop brasileira irá se sagrar assim como o rock Brasil e Marina será figura de destaque em ambos, aliás, vai ser nesse período que Marina viverá o ápice do seu sucesso.

Após uma boa estréia com o álbum Simples como Fogo, a cantora deixou a gravadora WEA e se transferiu para a Ariola, que hoje faz parte do catálogo da Universal Music. Com grande parte das canções compostas por Marina e seu irmão Antonio Cícero foi com esse álbum que Marina teve seu primeiro sucesso com repercussão nacional: “Nosso estranho amor”. Um dueto com Caetano Veloso, que também compôs a canção. Considerado pela cantora um álbum linear em termos de sonoridade, Olhos felizes é um de seus trabalhos mais agradáveis. Romântico, positivo e feliz.

O rosto de Marina totalmente impresso ocupando toda a capa do LP com um sorriso tímido, porém revelador de uma felicidade enorme. Esse é o clima do álbum que já fica escancarado na primeira canção, “Olhos felizes”: eu gosto de olhar o mundo, não ligo pro que dizem, meus olhos são felizes, diz Marina na canção. Marina está feliz, de bem consigo e consequentemente vê as coisas de uma forma mais positiva. Até o arranjo da música traduz isso. Um sambinha extremamente compassado e dançante.

A canção seguinte, meio rock, em parceria com Caetano Veloso, “Nosso estranho amor ” fala de alguém que quer apenas que seu amor seja aceito pelo outro e não quer grandes coisas em troca. Estado que só se alcança quando se está bem-resolvido na vida sentimental: feliz. Em “Só você”, uma canção solar, ela se declara que vive apenas para um ser e em “Rastros de luz” ela está ainda mais apaixonada. A ponto de se entregar por caminhos lascivos para chamar a atenção daquele que sequer a vê e que ainda assim ela se mantém muito por perto, uma forma primária de cantar o altar no escuro, talvez.

Mas não amor sem dor e nem amor que se esqueça. Em “O amor que eu não esqueço” Marina está lamentando a perda desse amor. A dúvida do que levou ao fim, os choros da madrugada e o desejo da volta, está tudo nessa balada feita para se dançar de rosto colado. Mas quem disse que, apesar disso, não se pode ter uma “Doce vida” e se viver feliz, livre, poder fazer o que quiser, independente das situações? É esse o recado dessa canção composta por Rita Lee.

Bem, estando-se feliz, está-se bem com o corpo e mente, assim ficamos ainda mais sedutores. A voz rouca e sexy de Marina dá o tom perfeito para a sedutora “Seu sabão” e as delícias da entrega total do amor à luxúria. Assim não como não ficar com os “Corações a mil”, cheios de vontade de se apaixonar e com vontade de abraçar o universo todo, como cantou Marina a música do Gilberto Gil.

Depois da tempestade dos corações pulsantes, vem a calmaria do velar a pessoa amada e de pensar serenamente que o amor só é infinito enquanto dura e enquanto “Meu menino dorme”. Afinal, é assim que ficamos “Às vezes com quem amo”. Sentimos amor e às vezes raiva, queremos perto e às vezes distante, afinal a vida não passa das ondas do amor.

O álbum que começa alegre vai acalmando-se progressivamente até encerra-se com essa bela canção cuja letra é a tradução do poema “Sometimes with the one I love” de Walt Whitman feita pelo Cícero.

Aqui me marcam muito as canções “Nosso estranho amor”, pois é assim que eu me senti na maioria as vezes, apenas querendo que o meu amor fosse recebido, nada mais, e “Olhos felizes”, pois é assim que tenho aprendido a me manter.

Apesar do sucesso de “Nosso estranho amor” nas rádios brasileiras, Marina não ficou satisfeita com o resultado final de “Olhos Felizes”. Ela buscava, não apenas uma identidade que já transparecia em suas canções autorais, mas uma assinatura ímpar na sonoridade de seu trabalho. Mas esse é assunto para o próximo post, enquanto isso ouça algumas músicas desse segundo trabalho da Marina.

Olhos Felizes


Nosso estranho amor

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Contrato Social

“Don't Ask, Don't Tell: Eu não pergunto, você não me diz. E assim vivemos todos nessa ilusão de realidade. Você fingindo ser o que eu quero e eu fingindo não ver o que você é.”
("E se fosse com você", por Lilah
no Tramas, Tranças e Bobagens)
Ser aceito, incluso, continuar tendo o respeito e carinho da família, dos amigos. Esse é o sonho de todo jovem gay ao se assumir. Mas diante de tantos estereótipos impostos pela mídia o menino e menina homossexual estão adotando aquele que é tido como o mais tolerável. É o que inúmeras vezes ouvi as pessoas chamando de ‘discreto’.


Como é esse tipo? Bem, você é gay e não nega isso, mas também não mostra. Todos sabem que você é gay e não comentam sobre isso. Simples! O que você ganha sendo assim? Ah, sendo discreto você não será excluído dos grupinhos da escola, universidade, trabalho, embora sempre haverá um que vá comentar que você olhou para o moreno bonitão. Em casa, sua mãe vai continuar te apresentando como o filhinho nota 10, mas fará inúmeros planos de passeios com o netinho lindo que você dará a ela quando se casar. Quando você se casar com uma mulher.


As pessoas não te apontarão na rua e dirão ‘lá vai o viadinho’, seus amigos gays não terão vergonha de andar ao seu lado com receio de que eles fiquem com fama de gays (!!!) caso sejam vistos ao lado da bichinha baquiosa. E o melhor, você poderá andar com seu namorado para onde quiser, embora tenham que se comportar como dois amigos do futebol.


O que você perde com isso? Não poderá abraçar, andar de mãos dadas e, sobretudo, beijar seu namorado em locais públicos como cinemas, shoppings, na rua de casa. Você também não poderá apresentar seu namorado como seu namorado para a família e amigos do trabalho. Você também não poderá comentar com a família sobre os seus planos para o futuro que incluem casar com um homem lindo e adotar um bebê.


Ah, mas o mais importante é que você venceu o preconceito e todos vêem com naturalidade a sua homossexualidade, não é mesmo? NÃO! Na verdade, você não venceu o preconceito e nem as pessoas passaram a te respeitar, tanto você quanto elas estão apenas jogando tudo para debaixo do tapete.


Os jovens gays de hoje crescem aprendendo que o gay respeitável é aquele que não demonstra sua sexualidade, que se padroniza em um tipo heterossexualizado. Veja bem, não estou dizendo que ser gay é ser ‘afeminado’, afinal, somos pessoas e como tal, diversificados. É como ser magro, gordo, alto, baixo. Não existe um tipo padrão.


Quando falo em auto-repressão da sexualidade me refiro àquele receio que você tem de trocar um singelo selinho com seu namorado na praça de alimentação do shopping por causa da reação das pessoas. Mais que isso, eu estou falando desse medo que você tem de ser estigmatizado como gay.


Tenho amigos ‘assumidos’ que odeiam o rótulo de gay. Forçam voz, gestos, andar, baseados no modelo de homem heterossexual por que acreditam que assim serão respeitados. Mais que isso, são os primeiros a recriminarem a bichinha baquiosa e a defenderem esse tipo de comportamento utilizando da seguinte expressão: ‘eu não preciso esfregar minha sexualidade na cara das pessoas para ser aceito’.


Mas você, eu, eles, somos gays, independente das nossas posturas. E agindo assim não seremos respeitados, mas invisíveis, ignorados nas nossas necessidades. Por que vivendo nessa ilusão que basta ‘não desmunhecar’ para serem respeitados, mas e mais jovens simplesmente deixam de se importar com a conquista dos seus direitos. Dos nossos direitos de cidadãos que são diariamente cerceados pelas mesmas pessoas que te respeitam por você ser um ‘gay discreto’.


No fim das contas não estamos sendo aceitos, apenas estamos nos acomodando. Não perturbamos as pessoas e em troca elas também não nos importunam. Um contrato social de boa convivência. Só que o preço é elevado. Custa uma vida. A sua vida.

P.S.: Esse texto nasceu de algumas excelentes horas de conversa madrugada afora com a Lilah e o AndreV do Lagrimadecrocodilo's Blog. Aliás, não deixe de lê-los também.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Simples como o fogo

Iniciamos hoje um especial sobre a cantora Marina Lima que aniversaria no dia 17 deste mês, fazendo 55 anos, publicando até aquela data um post especial em sua homenagem. Como 17 é também o número de álbuns lançados pela cantora ao longo dos seus 31 anos de carreira, faremos 17 postagens pegando como mote um dos seus discos.


Assim, falarei da vida e obra da cantora, além da minha relação com sua música, conforme anunciei no post “Mas eu disse sim e ela me ouvia”.

O ano era 1979 e Marina, ainda sem assinar o ‘Lima’, tinha então 24 anos. Nessa época os maiores referenciais na música brasileira, dentre outros grandes nomes, eram as baianas Maria Bethânia e Gal Costa que poucos anos antes haviam lançado, em conjunto com Caetano Veloso e Gilberto Gil, o disco “Os doces bárbaros”, uma das obras-primas da música brasileira.


Nessa mesma época aquilo que teríamos hoje como música pop começava a se definir com o lançamento do LP “Off The Wall”, primeiro da carreira solo de Michael Jackson e que até hoje é o álbum de Black music mais vendido da história, 20 milhões de cópias.


E foi nesse cenário que é lançado Simples como o fogo, primeiro álbum da cantora influenciada por estilos como o pop, rock, blues, o samba e a bossa. Mas a primeira aparição de Marina no cenário da MPB deu-se dois anos antes quando Gal Costa gravou uma composição sua, a canção “Meu doce amor”.


Mas a apresentação de Marina na MPB quase ocorre mais cedo, em 1976, quando Bethânia tentou gravar “Alma caída”, primeira das inúmeras parcerias de Marina e seu irmão, o poeta, filósofo e letrista Antônio Cícero. Essa gravação foi impedida pela censura militar e canção só veio a ser gravada anos depois, em 1989, no LP Estrebucha baby de Zizi Possi.


O primeiro LP de Marina já trazia impresso uma das características mais marcantes da carreira da cantora: a sonoridade única. Marina queria fazer um trabalho que fosse distinto de tudo que se ouvia àquela época. Para tanto ela mescla o blues e o rock, o samba, a bossa e música pop, que, aliás, nessa época inexistia no Brasil.


Abrindo o álbum, a canção "Solidão", de Dolores Duran, que ganhou uma interpretação forte e envolvente de Marina que em nada lembra o clima dor-de-cotovelo original. Apesar da letra triste é uma canção bem para cima, alegre. Em seguida, "Transas de amor", canção que nasceu de um papo de Marina e Cícero quando ela ainda tentava se compreender, a seu corpo e desejos. Essa canção imprime outra das características da cantora, a atualidade dos temas de suas composições. A música fala da relação sexo descompromissado e sexo com amor.


Depois de cantar seu desconforto com a solidão e sobre os dilemas de transar por transar ou não, Marina fala em "A chave do mundo" do amor que ao mesmo tempo em que aquece, queima, um amor simples como o fogo e em seguida, em uma balada meio rock, meio blues, trata da como pode ser "Tão fácil" fácil amar e se perder de amor.


Como toda jovem, difícil, esquisita, hiperativa, angustiada, essa é a "Maneira de ser" de Marina, tema dessa canção. Noturna, ela canta as lágrimas de um fim de amor sobre a carta de adeus em "Revolta", composição de Moraes Moreira. E depois fala sobre como é ficar "Literalmente louca" com um simples olhar da pessoa amada. "Não há cabeça", composta por Ângela RoRo, e os antagonismos sentimentais segue-se no álbum antecipando-se à "Memória fora de hora", uma canção de letra bem curta que fala da saudade de algo que está distante e encerrando o disco, "Muito", do Caetano Veloso, e a volúpia, a gula, o exacerbar dos sentimentos.


Desse álbum me marca muito a canção "Memória fora de hora" que acabou se tornando uma seção do blog onde falo das minhas angústias e de coisas que me ocorrem inesperadamente. O verso “o meu amor mora lá no Rio” é literal para mim. "Transas de amor" também me diz muito. Às vezes fico na dúvida se “os sonhos de quem ama não cabem só na cama”.

Quando Marina surgiu na cena pop brasileira, no final dos anos 70, foi um verdadeiro alvoroço. A tímida cantora carioca que tem o charme do mundo, com a sua mistura única de pop-rock com a MPB mais tradicional, arrebatou uma legião de fãs com o seu estilo "cool", e uma voz bela e sensual misturada a composições inteligentes.

O trabalho, de certa forma, foi um pouco incompreendido. Afinal de contas, as pessoas sempre demoram um pouco para digerir o diferente, no entanto, Simples como Fogo é complexo musicalmente e ao mesmo tempo leve e envolvente. Com ele, Marina deixou uma bela primeira impressão.

Ouça aqui algumas canções desse LP:

Transas de amor


A chave do mundo