terça-feira, 14 de setembro de 2010

Entre mágoas e ingratidões, eu

Arriscar ser derrotado por mentiras que vão, mentiras que vem punir.
Um coração cansado de sofrer... acho que vou desistir!
(Marina Lima)


Ingratidão. A palavra que mais ouvi nos últimos tempos. Mágoa. Outra palavra que ouvi inúmeras vezes nos últimos meses. Esta seria a conseqüência daquela. Eu seria o causador de ambas. Eu!

Eu que tantas vezes fui acusado de coisas que não fiz. Eu que nunca revidei nem à pior das ofensas. Eu que chorei calado no escuro do meu quarto noites a fio após homéricas discussões. Eu que fui condenado sem direito a defesa. Eu que sofri o terror de ameaças de humilhações públicas. Eu que hesitei tantas vezes tantas coisas só para não ofender.

Eu que não tenho mais a quem pedir, chorar, o que dizer. Eu que todos os dias tenho que suportar a lâmina do olhar inquisidor e reprovativo sobre mim. Eu que não consigo mais suportar a tensão diária de saber que a qualquer momento posso ser expulso. Eu que não sei mais por que resistir.

Eu que sou mais uma vez alçado da categoria de vítima a algoz pelo simples fato de eu não sei mais por quê. Eu que passei mais uma noite entre meus lençóis ardendo em febre e sem causas físicas para isso. Eu que sinto uma grande dor física, sim, física, embora não me tenham tocado o corpo. Eu que sinto minadas todas as minhas alegrias.

Eu que não tenho sequer o direito de gritar essa droga de descontentamento, pois não tenho um local seguro para fazê-lo. Eu que tenho tido minha fé no mundo testada ao extremo todos os dias. Eu que me forço a acreditar em algo qualquer de verdadeiro e bom para conseguir continuar respirando. Eu que já quis esvaziar de ar os meus pulmões e não sentir mais.

Uma cadeira ainda é uma cadeira mesmo quando não há ninguém sentado lá, mas uma cadeira não é uma casa e uma casa não é um lar quando não há ninguém lá para te abraçar e ninguém lá para você dar um beijo de boa noite. Eu que tenho uma casa, mas não um lar.

Eu que sinto que vou desistir. Eu que tenho uma grande revolta dentro de mim. Eu que sou um herói vencido. Eu que quero destruir as flores pelo jardim. Eu...

O que eu fiz para merecer todos esses ataques? Ser eu mesmo é digno de tanta fúria assim? Não suporto mais o peso desse fardo que me impõem. Não tenho culpa por nada do que me apontam. É cruel e desumano me tratarem assim.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Que tudo amém

Liberdade é bom, oh baby,
Delicadeza também.
Vê se não atropela, baby,
Que tudo amém.
(Marina)

Estamos no último ano da década de 1980. A década de Marina. Foi aqui que ela “aconteceu”. Há 10 anos quando ela lançou seu primeiro álbum – Simples como o fogo (1979) - Marina queria fazer um trabalho que fosse distinto de tudo que se ouvia àquela época. E conseguiu. Só que inquieta do jeito que é, após ter atingido o seu ponto ideal, achou que ainda não tinha feito o bastante.

Assim, já consagrada como a maior cantora dos anos 1980, símbolo de canções autorais e de novas sonoridades, Marina lança em 1987 o LP Virgem com o refinamento indispensável a uma pessoa que analisa profundamente o sucesso e o que havia feito até ali. Agora é tempo de planejar o futuro.

O álbum Próxima parada, oitavo de estúdio e nono da carreira da cantora, lançado em 1989, trouxe uma direção calma em canções como a questionadora “$Cara” e “Garota de Ipanema”, bela releitura da composição de Tom Jobim e Vinicius de Mores. Destaque também para a música título “Próxima parada” e para o maior sucesso comercial do álbum “À francesa” – composta por Claudio Zoli e Antonio Cícero, e que foi tema da personagem de Malu Mader em “Top Model”, telenovela da Rede Globo.

Este foi o primeiro trabalho em que ela participou da produção e que não veio com uma foto sua estampada na capa. Em vez de seu rosto, fotos em preto e branco, de Walter Firmo, de automóveis em trânsito, um avião decolando, numa colagem do artista plástico Luciano Figueiredo. Mais uma forma da cantora afirmar que queria ser reconhecida pela sua arte e não pela sua imagem.

Atualidade das canções, esta foi uma das características que ressaltei no primeiro texto dessa série especial. E isso fica evidente nos versos de “$Cara”, canção que abre o disco. O ano era 1989 e Marina cantava: há sonhos e insônias, Ozônios e Amazônias e um novo amor no ar. Em seguida, regravando Os Paralamas do Sucesso, cantou os amores impossíveis em “Dois elefantes”: seu rosto em meu rosto rindo; dois elefantes no fundo do mar.

Aliás, outra característica de Marina é o romantismo “cool” em seus discos. Sem exageros, mas tudo com muita urbanicidade e realismo. Assim como na canção anterior, em “Encarando você”, ela traz altas doses desse romantismo: vi no meu caminho uma aglomeração, procurei você não sei por quê. Em “Extravios”, uma canção meio jazz, meio blues, de Cícero e Dalto – de quem Marina regravaria “Pessoa” dali a alguns anos – mais uma mostra dessa faceta da cantora: encoste este ombro no meu braço ocasionalmente infiel e faça-me sentir no seu abraço um pouco além de algumas gotas de Chanel.

O hit do álbum e um dos maiores sucessos da carreira de Marina veio com “À francesa”. Um clássico da música pop brasileira e umas das canções cartão de visitas dos anos 1980. Letra de Cícero e Zoli, até hoje a canção conquista fãs Brasil adentro, afinal, os momentos felizes não estão escondidos nem no passado e nem no futuro. Em seguida a canção, cujo clipe, inauguraria a MTV Brasil em 1990. Uma releitura de um grande clássico da MPB. “Garota de Ipanema”.

Voando solo, Marina escreveu “Que tudo amém” para depois se revelar em “Próxima parada”: prefiro pôr as cartas sobre a mesa, não dou meu desejo a Deus. Depois outra regravação e recriação: “Only you”, do The Platters. Fechando o disco, uma versão instrumental de “$Cara”.

Próxima parada é um disco mais conceitual. Marina vinha de dois grandes sucessos e fez um trabalho de transição no qual revê sua posição diante da mídia e do público. Nesse sentido, o LP reafirma sua relação com a música. O álbum, que exala sofisticação, rendeu a Marina os prêmios Sharp como melhor cantora pop/rock e de álbum do ano, além de ter sido certificado como disco de ouro ao vender 100 mil cópias.

Marina deu mais uma guinada em sua carreira, refletida no apurado resultado do Próxima Parada onde se mesclam blues, rocks e as recriações de grandes clássicos, uma das marcas registradas da artista que, antenada com seu tempo e, junto com o mentor e parceiro Antonio Cícero, realizou um disco híbrido feito do presente e do futuro.

Se quiser saber mais sobre a carreira de Marina, leia os demais textos do Especial Marina Lima. Abaixo, você pode ouvir alguns clássicos desse álbum.
À francesa


Garota de Ipanema


$Cara

domingo, 12 de setembro de 2010

O raio de Iansã

O vento bateu na saia de Iansã
O vento bateu pra Iansã rodar


Os versos acima refletem bem a noite de ontem. O vento bateu na saia de Iansã e ela rodou como nunca. Saí para dançar com uns amigos e parece que estava tomado por uma força maior que eu que me guiava pela pista de dança e me fazia bailar inexplicavelmente. Em dado momento, em meio aos versos entoados por Gaga, Beyoncé, Lorena Simpson, Georgia Brown e outras divas do pop, lembrei-me da canção abaixo. Signifeeca? Então, deixo vocês na poderosa companhia do raio de Iansã.

Iansã

Demburê, Indemburê, Mavanjú
Indemburê, Mavanjú, Indemburê, BelaOya

Demburê, Indemburê, Mavanjú
Indemburê, Mavanjú, Indemburê, BelaOya


Senhora das nuvens de chuva
Senhora do mundo dentro de mim

Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom
Tempo ruim


Demburê, Indemburê, Mavanjú
Indemburê, Mavanjú, Indemburê, BelaOya


Senhora das chuvas de junho
Senhora de tudo dentro de mim

Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom
Tempo ruim


Eu sou o céu para as tuas tempestades
Céu partido ao meio no meio da tarde
Eu sou o céu para as tuas tempestades
Deusa-pagã dos relampagos
Das chuvas de todo ano dentro de mim


Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom
Tempo ruim

Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom
Tempo ruim


Aew didi
Aew dindá
Oya matamba te aruê
Oya matamba te aruá


Aew didi
Aew dindá
Oya matamba te aruê
Oya matamba te aruá


Aew didi
Aew dindá
Oya matamba te aruê
Oya matamba te aruá


Aew didi
Aew dindá
Oya matamba te aruê
Oya matamba te aruá


Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom
Tempo ruim


Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Uma vida em risco: um caso de abuso sexual

Esta é uma história real:

Ele tinha 7, 8 ou 9 anos. Não lembra exatamente. O trauma foi grande demais e alguns detalhes sumiram de sua memória. Ele sempre foi uma criança tímida, reservada, e essa história nunca foi contada antes. Nem mesmo para si ele a relatava.

Todas as tardes, ele e um dos seus primos costumavam brincar na casa de um vizinho. Os dois estudavam na mesma escola pela manhã e passavam o dia juntos. À tarde, depois de terminados os deveres escolares, eles costumavam brincar na casa do tal vizinho. O homem era amigo da família há muito tempo e por isso era digno de muita confiança da parte de todos.

Como a mãe do menino tinha muito trabalho para fazer na parte da parte da tarde, mandava-o junto com seu primo para brincarem na casa do vizinho para que pudesse se concentrar em seu trabalho. Na casa do vizinho, ambos viam TV, desenhavam, jogavam. Nada demais. Tudo normal. Até uma certa tarde.

O primo não fora à escola, então o menino foi sozinho para a casa do vizinho. O vizinho tinha 30 e poucos anos. Isso ele também não sabe ao certo. A rotina, aparentemente, seria a de sempre: desenho, jogos, TV. Mas não foi. Ele também não lembra ao certo como tudo ocorreu. Só lembra que em dado momento estava sem roupas, deitado de bruços sobre a cama e com o homem sobre si, tentando penetrá-lo enquanto brincava com seu pênis.

Era tudo muito perturbador e desconfortável. Sob gritos de protesto, o homem parou. Se o ato foi concretizado, o menino também não sabe afirmar. Apenas alguns flashes lhe ocorrem quando estas lembranças lhe vem à mente e ele não consegue detalhar todos os momentos daquela tarde infeliz.

Depois ele voltou para sua casa e nunca mais voltou à casa do vizinho. À mãe sempre inventava desculpas para permanecer em casa e ela nunca desconfiou de nada ou se importou em saber o porquê desta repentina aversão. Se houve alguma ameaça ele também não lembra, mas o fato é que nunca tocou no assunto. Até hoje.

O vizinho mudou-se tempos depois e nunca mais se soube nada sobre ele. Hoje o menino é gay. Não. Ele não acha que houve qualquer relação entre os dois fatos. Desde muito antes daquela tarde ele já tinha um olhar diferenciado para os outros meninos. Mas sua relação com a homossexualidade foi fortemente influenciada por aqueles acontecimentos.

A confiança em si, nos homens, sua auto-aceitação. Foi tudo muito traumatizante e difícil de consolidar-se, pois sempre lhe vinha à mente aquela tarde. Ainda hoje ele sofre com a dificuldade de relacionar-se com outros homens por não conseguir confiar plenamente em suas intenções. Seja relação amorosa ou sexual, são poucos os momentos de entrega total. Ainda há o medo de que se repitam os fatos daquela tarde.

***


Assim como aconteceu com o garoto acima, diariamente milhares de meninos são vítimas de abuso sexual por parte de homens mais velhos, em geral, heterossexuais. Não raramente um vizinho, um amigo da família, um cunhado, um tio, um primo ou mesmo o pai ou mesmo um amigo, um irmão, um professor. Um homem mais velho e que veja com maus olhos o comportamento fora dos padrões para o gênero e idade do menino que quase sempre é tímido, sensível, frágil, amedrontado, o que para muitos são “sinais da homossexualidade”.

Crescidas, estas crianças, gays ou não, passam a lidar com todos os traumas gerados pela agressão sofrida e pela desatenção dos pais que não souberam interpretar que aquele medo nutrido por aquele que antes era um amigo tem uma causa real e não é apenas um capricho infantil.

Sem este sistema de apoio, mesmo tendo sofrido agressões, esses garotos não denunciam nem relataram o fato a absolutamente ninguém. Não que eles prefiram vivenciar essa experiência de forma isolada e solitária a compartilhá-la com alguém, mas, existe, nesse caso, o temor de serem revitimizados por pessoas próximas ou por autoridades policiais, de serem agredidos novamente nas delegacias ou em casa e terem seu sofrimento aumentado. Isso porque existe uma aceitação no Brasil em relação a esse tipo de violência e discriminação.

Mais que isso, imagine para um menino, sobre o qual os pais depositam todas as expectativas e que desde cedo o tratam como o ‘macho pegador’ ter que assumir que sofreu uma violência desse tipo, sobretudo em uma fase da vida onde não há consciência sobre sua sexualidade. Pense em todas as confusões que isso suscita na cabeça despreparada de uma criança, de um menino, de um futuro homem. Os meninos não são preparados para serem subjugados, por isso a decisão de muitos de calar-se.

Uma vez adultos, se gays, estes meninos tem problemas em aceitar esse traço das suas personalidades. Muitos preferem lutar contra o desejo de deitar-se com outro homem pelo asco que isso passa a lhes representar e tornam-se homofóbicos, condição que é ainda mais severa caso se trate de um heterossexual pelo medo doentio que este passa a ter de ser rotulado como homossexual.

Felizmente, os danos físicos permanentes como conseqüência do abuso sexual são muito raros. As reações das crianças ao abuso sexual diferem com a idade e com a personalidade de cada uma, bem como com a natureza da agressão sofrida. Muitos jovens abusados continuam atemorizados e perturbados por muito tempo, às vezes, pela vida toda.

As sequelas do abuso sexual podem ser de ordem psíquica, sendo um relevante fator na história da vida emocional desses futuros homens como problemas conjugais, psicossociais e até mesmo transtornos psiquiátricos. A maior e pior das sequelas é que este menino que sofreu abuso sexual na infância pode ser o homem que abusa sexualmente de outros meninos.

Os danos à personalidade, como os futuros sentimentos de traição, desconfiança, hostilidade e dificuldades nos relacionamentos, sensação de vergonha, culpa e auto-desvalorização, da baixa autoestima à distorção da imagem corporal, dentre outros, são irreversíveis.

E por que tudo isso? Porque desde a infância a criança sofre com o preconceito ante o seu comportamento sexual “inapropriado”.