Esta é uma história real:
Ele tinha 7, 8 ou 9 anos. Não lembra exatamente. O trauma foi grande demais e alguns detalhes sumiram de sua memória. Ele sempre foi uma criança tímida, reservada, e essa história nunca foi contada antes. Nem mesmo para si ele a relatava.
Todas as tardes, ele e um dos seus primos costumavam brincar na casa de um vizinho. Os dois estudavam na mesma escola pela manhã e passavam o dia juntos. À tarde, depois de terminados os deveres escolares, eles costumavam brincar na casa do tal vizinho. O homem era amigo da família há muito tempo e por isso era digno de muita confiança da parte de todos.
Como a mãe do menino tinha muito trabalho para fazer na parte da parte da tarde, mandava-o junto com seu primo para brincarem na casa do vizinho para que pudesse se concentrar em seu trabalho. Na casa do vizinho, ambos viam TV, desenhavam, jogavam. Nada demais. Tudo normal. Até uma certa tarde.
O primo não fora à escola, então o menino foi sozinho para a casa do vizinho. O vizinho tinha 30 e poucos anos. Isso ele também não sabe ao certo. A rotina, aparentemente, seria a de sempre: desenho, jogos, TV. Mas não foi. Ele também não lembra ao certo como tudo ocorreu. Só lembra que em dado momento estava sem roupas, deitado de bruços sobre a cama e com o homem sobre si, tentando penetrá-lo enquanto brincava com seu pênis.
Era tudo muito perturbador e desconfortável. Sob gritos de protesto, o homem parou. Se o ato foi concretizado, o menino também não sabe afirmar. Apenas alguns flashes lhe ocorrem quando estas lembranças lhe vem à mente e ele não consegue detalhar todos os momentos daquela tarde infeliz.
Depois ele voltou para sua casa e nunca mais voltou à casa do vizinho. À mãe sempre inventava desculpas para permanecer em casa e ela nunca desconfiou de nada ou se importou em saber o porquê desta repentina aversão. Se houve alguma ameaça ele também não lembra, mas o fato é que nunca tocou no assunto. Até hoje.
O vizinho mudou-se tempos depois e nunca mais se soube nada sobre ele. Hoje o menino é gay. Não. Ele não acha que houve qualquer relação entre os dois fatos. Desde muito antes daquela tarde ele já tinha um olhar diferenciado para os outros meninos. Mas sua relação com a homossexualidade foi fortemente influenciada por aqueles acontecimentos.
A confiança em si, nos homens, sua auto-aceitação. Foi tudo muito traumatizante e difícil de consolidar-se, pois sempre lhe vinha à mente aquela tarde. Ainda hoje ele sofre com a dificuldade de relacionar-se com outros homens por não conseguir confiar plenamente em suas intenções. Seja relação amorosa ou sexual, são poucos os momentos de entrega total. Ainda há o medo de que se repitam os fatos daquela tarde.
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Assim como aconteceu com o garoto acima, diariamente milhares de meninos são vítimas de abuso sexual por parte de homens mais velhos, em geral, heterossexuais. Não raramente um vizinho, um amigo da família, um cunhado, um tio, um primo ou mesmo o pai ou mesmo um amigo, um irmão, um professor. Um homem mais velho e que veja com maus olhos o comportamento fora dos padrões para o gênero e idade do menino que quase sempre é tímido, sensível, frágil, amedrontado, o que para muitos são “sinais da homossexualidade”.
Crescidas, estas crianças, gays ou não, passam a lidar com todos os traumas gerados pela agressão sofrida e pela desatenção dos pais que não souberam interpretar que aquele medo nutrido por aquele que antes era um amigo tem uma causa real e não é apenas um capricho infantil.
Sem este sistema de apoio, mesmo tendo sofrido agressões, esses garotos não denunciam nem relataram o fato a absolutamente ninguém. Não que eles prefiram vivenciar essa experiência de forma isolada e solitária a compartilhá-la com alguém, mas, existe, nesse caso, o temor de serem revitimizados por pessoas próximas ou por autoridades policiais, de serem agredidos novamente nas delegacias ou em casa e terem seu sofrimento aumentado. Isso porque existe uma aceitação no Brasil em relação a esse tipo de violência e discriminação.
Mais que isso, imagine para um menino, sobre o qual os pais depositam todas as expectativas e que desde cedo o tratam como o ‘macho pegador’ ter que assumir que sofreu uma violência desse tipo, sobretudo em uma fase da vida onde não há consciência sobre sua sexualidade. Pense em todas as confusões que isso suscita na cabeça despreparada de uma criança, de um menino, de um futuro homem. Os meninos não são preparados para serem subjugados, por isso a decisão de muitos de calar-se.
Uma vez adultos, se gays, estes meninos tem problemas em aceitar esse traço das suas personalidades. Muitos preferem lutar contra o desejo de deitar-se com outro homem pelo asco que isso passa a lhes representar e tornam-se homofóbicos, condição que é ainda mais severa caso se trate de um heterossexual pelo medo doentio que este passa a ter de ser rotulado como homossexual.
Felizmente, os danos físicos permanentes como conseqüência do abuso sexual são muito raros. As reações das crianças ao abuso sexual diferem com a idade e com a personalidade de cada uma, bem como com a natureza da agressão sofrida. Muitos jovens abusados continuam atemorizados e perturbados por muito tempo, às vezes, pela vida toda.
As sequelas do abuso sexual podem ser de ordem psíquica, sendo um relevante fator na história da vida emocional desses futuros homens como problemas conjugais, psicossociais e até mesmo transtornos psiquiátricos. A maior e pior das sequelas é que este menino que sofreu abuso sexual na infância pode ser o homem que abusa sexualmente de outros meninos.
Os danos à personalidade, como os futuros sentimentos de traição, desconfiança, hostilidade e dificuldades nos relacionamentos, sensação de vergonha, culpa e auto-desvalorização, da baixa autoestima à distorção da imagem corporal, dentre outros, são irreversíveis.
E por que tudo isso? Porque desde a infância a criança sofre com o preconceito ante o seu comportamento sexual “inapropriado”.