quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Quem é que está sujo?

As duas histórias a seguir são reais:

João tem 17 anos. No começo da adolescência ele teve uma namorada que acabou se convertendo em melhor amiga quando ele assumiu para si que na verdade gosta de meninos. Não foi fácil, claro, quase nunca o é para ninguém. Sozinho e sem ter com quem contar fez as coisas da forma como podia e aprendia na rua: andando pelo gueto. Foi assim que aos 14 anos perdeu a virgindade com um homem de 40 anos em um banheiro público qualquer dentre os tantos que freqüentou. Hoje, sente-se sujo e com vergonha do que fez, mas para ele, o tempo passou. Está feito. Não há mais como desfazer os hábitos que o fazem sentir-se assim. Para ele ficou apenas o infindável desejo humano de recomeçar, mudar os hábitos, mas a memória não se apaga, não é mesmo?

José tem 23 anos. Na infância, aos 7 ou 8 anos, não se lembra ao certo, foi abusado sexualmente por um amigo da família. Com isso ele desenvolveu alguns traumas. Tem dificuldades em confiar nas pessoas, não tem uma vida sexual satisfatória e não faz a menor idéia de onde, como ou com quem teve sua primeira transa de verdade. A confiança em si, nos homens, sua auto-aceitação. Foi tudo muito traumatizante e difícil de consolidar-se, pois sempre lhe vinha à mente aquela tarde. Ainda hoje ele sofre com a dificuldade de relacionar-se com outros homens por não conseguir confiar plenamente em suas intenções. Seja relação amorosa ou sexual, são poucos os momentos de entrega total. Ainda há o medo de que se repitam os fatos daquela tarde.

O que você tem a ver com isso? Tudo. Ou muito, no mínimo. Enquanto luta contra a concessão de direitos básicos como o casamento civil, a adoção homoparental ou a criminalização da homofobia, você esquece todos os dias que também não são garantidos a outros milhares de Joões, Josés e Marias um direito natural: o de se relacionar saudavelmente.

Em banheiros públicos, becos escuros, matagais, cinemas pornôs, saunas, boates, meninos e meninas se arriscam todos os dias fazendo sexo sem segurança, sem proteção, sem condições mínimas de higiene e sem saber exatamente as conseqüências que isso pode trazer. Muitos pais, se descobrem esse tipo de atitude, ajudam a empurrar ainda os filhos para a vala úmida dos guetos expulsando-os de casa ou os agredindo verbal e fisicamente ou os dois.

E sempre há quem diga que “esses adolescentes fazem isso por que gostam”. Nessa etapa da vida essa é a única opção para eles. Imagine você, pai e mãe de um jovem gay, ou você que apenas diz não gostar dos meus, ser obrigado a transar, na maioria das vezes, em ambientes deploráveis tendo que descobrir o prazer em meio ao barulho das descargas dos vasos sanitários, da confusão de odores fétidos, do receio de ser descoberto e exposto ao ridículo pelo segurança do shopping, do medo de ser atacado por um bandido que espreita da rua mal-iluminada.

Imaginou? Então me responda se seu filho merece isso. Se alguma pessoa merece passar por tudo isso justamente na fase da vida em que está descobrindo a si, a seu corpo, ao outro e ao corpo do outro, aos seus sentimentos, desejos e ainda tem que lidar com a auto-repulsa por ser diferente. Pense e diga se você gostaria de ter trocado aquele momento inesquecível com a namoradinha do colégio no quarto dos pais em um domingo em que estes passaram o dia fora por uma transa de 10 minutos em um cinema pornô sendo observado e tocado e assediado por inúmeras outras pessoas.

Talvez você não perceba ou não admita, mas uma parte da culpa que João e José carregam hoje é sua responsabilidade. E você continua criando outros tantos jovens assim quando aponta e ri de algum gay na rua, quando torce o nariz para ele, quando diz que seus atos são pecaminosos, quando diz que sua sexualidade é uma opção, mas não lhe dá a opção de escolher com quem ele quer dividir momentos únicos e importantes da sua vida. São eles que se sentem sujos, mas o tapete embaixo do qual se esconde a sujeira é você!

7 comentários:

Uma Historia de Amor disse...

Acho triste, o que aconteceu com jose e joao.
Nos dias de hj, jose poderia denunciar o familiar que abusou de sua inocencia, sempre existe tempo de uma puniçao moral, para quem faz isso com uma criança.

Aos adolelescentes que precisam utilizar recursos de ruas ou banheiros, esperem!
Vcs vao crescer e serao independentes.
um bj a todos principes e princesas, o reinado ainda vai começar.

O meu carinho, Roberta.

Ricardo H. disse...

Jock, mais uma vez parabéns pelo texto. Sempre sensivel, atento e crítico.
Sabe que já sou um fá teu, né?!

Bjão!

Tiago leal disse...

Você está escrevendo perigosamente rapaz. A vida é muitas vezes uma ferida aberta mas que cicatriza quando vc para de arrancar a casca. Há tantos outros jovens que nunca passaram por isso, que sempre foram bem acolhidos pelos pais. Um psicólogo pode auxiliar uma pessoa a ecuperar sua auto-estima. Mas é preciso seguir em frente e não se fechar.

Patricia Daltro disse...

Post forte e dolorosamente verdadeiro. Fechar os olhos e fingir que não temos responsabilidades é o mesmo que ferir diariamente muitos desses jovens!
Parabéns pelo post e que possamos mudar essa mentalidade e comecemos a deixar de ser tapetes por ai.

Lola disse...

Oi Jock!

Texto mais que sensível e até educativo! As pessoas baseiam-se em pré-julgamentos na hora de pensar nos outros, como se os problemas tivessem apenas uma faceta. Vc abordou o problema por outro ângulo!

Bjs

Oráculo do Dragão disse...

Pois, é José. No dos outros é refresco. Quanto mais me empurram para guetos, mais eu ando com minha namorada de mãos dadas na rua. Também temos direito ao sol! Também somos seres humanos e também pagamos impostos. Como os héteros se sentiriam se não pudessem se assumir héteros, se fossem empurrados para guetos? Como seria a relação sexual de adolescentes héteros? O problema do ser humano é que poucos possuem empatia. Abração

jonathan disse...

Parabéns pelo texto. incrível perceber nos comentários pessoas ainda cegas a esta realidade. Situações como as descritas não são uma opção que se tem para uma vida mais perigosa e excitante, são a única opção na GRANDE maioria quase que absoluta dos casos.

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