segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Seu tempo

“Eu sei. Estou aprendendo. A vida é meu tempo sem me guardar ou machucar demais. E nem quero mais a chave do mundo. Eu sempre mudo, nada é igual, mas o fundamental pra mim é saber achar o que esse tempo tem pra dar.”
(Marina Lima e Antônio Cícero)

Os versos iniciais da canção “Meu tempo”, sexta faixa do álbum Desta vida, desta arte – o quarto da discografia de Marina, lançado em 1982 – deixam bem claro como Marina via sua carreira após a repercussão dos seus primeiros trabalhos.

De candidata a nova grande intérprete da MPB, ela se lançou no difícil mundo dos cantores autorais. Era assim que ela queria seguir: sendo reconhecida não (apenas) pela sua voz, mas pelo seu estilo (muito) pessoal de compor, cantar e musicar suas letras. E assim como o LP anterior, Certos acordes, foi com essa concepção que o novo LP foi concebido.

Produzido em parceria com o guitarrista Pisca, remanescente do bem sucedido disco anterior, o quarto LP de Marina chama a atenção pela variedade de sua sonoridade e por flertar com o pop/rock – estilo em que a cantora mergulharia profundamente em meados dos anos 1980. Dos até então lançados, este foi o melhor e mais autoral álbum da cantora.

Uma das mais marcantes características de Marina enquanto intérprete é sempre gravar músicas que reflitam seu estado de espírito. Essa vontade de criar uma identidade própria, referencial, no cenário musical brasileiro é refletida em todas as canções do LP.

Abrindo o disco “Acho que dá” traz a decisão: Eu vou ver se tomo conto de mim (...). Assim acho que dá pra vencer. Só quero achar que vai dar. Em“Depois me diz”, o receio: A gente às vezes faz demais, de depois volta atrás. Em “Mapa-mundi”, um traço de dúvida: Eu já não sei mais bem por onde eu sigo. Em “É a vida que diz”, uma certeza: É a vida que diz ‘é hoje’. Em “Este ano”, a segurança para seguir: Só me alio ao que move. Se o tempo voa, eu vou. Em “Meu tempo”, a consciência de si: Eu sei, estou aprendendo. Em “Noite e dia”, o motivo: E eu olho sorrindo, lindo. Você está me convidando.

A voz sofisticada de Zizi Possi se une à envolvente de Marina na canção “Essas coisas que eu mal sei”, cuja letra de Antônio Cícero fala do seguir e se perder até se encontrar em alguém. E como Marina queria poder dizer que tinha, definitivamente se encontrado, na sua vida, na sua arte, dispara em “Nos beijamos demais”: Onde eu estou você está. Nós somos almas iguais. E encerrando o álbum Marina arremata: Eu tô em paz com a vida e que ela me traz a fé que me faz otimista demais. Na regravação de “Emoções”, clássico de Roberto e Erasmo Carlos, na qual ela tem o luxuoso acompanhamento de Rildo Hora na gaita.

Interessante como de todos os discos lançados por Marina, este é o com que eu tenho menos contato. O ouvi muito pouco e poucas canções dele constam na minha lista de quase cem canções da cantora no meu MP4. Das dez faixas do disco, “Essas coisas que eu mal sei” é a que mais me toca, mas pela interpretação de Marina e Zizi que pela letra. Acho que ainda não escutei esse disco com ouvidos de quem ouve. Acho que ele ainda não está no meu tempo.

O LP Desta vida, desta arte possui verdadeiras pérolas musicais como: “Acho que dá” – composta com Tavinho Peres, “Noite e dia”, de Lobão – então baterista da banda de Marina - e Julio Barroso, a regravação de “Emoções” de Roberto e Erasmo Carlos e a tocante “Essas coisas que eu mal sei”. Letra bela e inspirada que ganhou mais força nas interpretações de Marina e Zizi Possi.

O sucesso “Nos beijamos demais”, da trilha sonora do longa “Beijo na boca” completa um trabalho que se impõe pela diversidade musical e de talentos e que marcou o fim da era Ariola na carreira de Marina.

Continue acompanhando o Especial Marina Lima.

2 comentários:

J. disse...

Resenha muito bem feita, parabéns!

"Desta Vida, Desta Arte" foi por um bom tempo o álbum da Marina que eu menos gostava, tive que ouvi-lo várias vezes pra começar a gostar...hoje é um dos que mais rodam o rádio.

Dê mais algumas chances a esse disco, com certeza ele vai te conquistar!

Jonas

Jock Dean disse...

Jonas, obrigado pela visita e pelo elogio.
Como gosto muitíssmo mais de outros discos da Marina, quase nunca lembro deste, mas vou ouvi-lo com mais calma sim.

Não deixe de acompanhar todo o especial.

Postar um comentário